E agora, José? - análise do poema "José", de Carlos Drummond de Andrade

 José
1
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
2
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
3
E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?
4
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
5

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!
6
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?”

(Carlos Drummond de Andrade)

Análise - parte 1

- por Oriza Martins



O poema "José", de Carlos Drummond de Andrade, foi publicado em 1942.

Trata-se de um poema modernista, com liberdade de rimas, linguagem coloquial, cenários da vida cotidiana, uso de regionalismos e é farto em linguagem figurada para exprimir temas da situação-limite em que se encontra eu-lírico :da solidão, do abandono, da impossibilidade, da impotência, do desencanto, da angústia, uma luta travada interiormente contra a visão pessimista do porvir, ou seja, um verdadeiro conflito existencial.

O próprio Drummond, em cartas e entrevistas, nos fala sobre essa crise existencial.
Em uma entrevista a sua filha, o poeta admitiu que "José é um poema de explosão, é o poema de um suicida que não se suicidou". 

Em uma carta a um amigo historiador , mineiro como o poeta,  Drummond explica que escreveu o poema José num "momento de crise existencial em que queria fugir de tudo e de todos e não voltar fisicamente para Minas Gerais". 


Para entendermos melhor o poema José, é importante uma reflexão sobre o contexto em que a obra foi escrita, é importante conhecermos a época em que o poema foi lançado: ano de 1942.

Em 1942, a Segunda Guerra Mundial encontrava-se no auge, com amplo poderio das forças do Eixo, comandadas pelo tripé: Alemanha nazista / Itália fascista / Japão imperialista.

A batalha de Stalingrado - cuja vitória soviética significou a mudança do pêndulo em favor dos Aliados no fronte leste -, só ocorreria no final do ano de 1942; no fronte do Pacífico, os EUA que haviam acabado de entrar na guerra (dezembro/1941), ainda tentavam se organizar para a luta de fato. 

A primeira vitória americana sobre os japoneses, em Midway, aconteceria somente em junho de 1942, como um sinal de esperança de que os Aliados poderiam vencer o conflito, mas num futuro imprevisível, distante.

Ou seja: os rumos da guerra ainda estavam indefinidos, o mundo mergulhado na incerteza, no prenúncio do caos, vislumbrando um  cenário que poderia vir a se tornar catastrófico para a humanidade.

Isso tudo acontecia no contexto internacional, e nesse contexto, surge o poema "José", de Carlos Drummond de Andrade, com um agravante: como se não bastasse tudo o que ocorria no cenário internacional, aqui no Brasil o país era governado por uma ditadura - a ditadura Vargas, que flertava com o nazismo, que vacilou muito e quase levou o país a lutar no lado errado da guerra.

E Drummond, como se sabe, era um homem de ideais, progressista, de esquerda. Então, imaginem como se sentia o poeta vivenciando aqueles tempos.
Diante de um cenário desses, tínhamos o mundo em desencanto, o Brasil em desencanto, e o homem em desencanto.

Esta era a pergunta cotidiana que todos os que ansiavam pela paz se faziam: E agora? E agora, José? Para onde caminhas? Para onde caminha a humanidade?
E o eu-poético, o eu-lírico, diante das contingências históricas e de suas próprias inquietações pessoais, questionava o outro e se questionava: E agora, José? E questionava o leitor: E agora, você?

Então, uma interpretação possível para o personagem "José" é a de que ele significa não apenas o próprio poeta, mas cada um de nós, ou todos nós, em conjunto, ou seja, toda a humanidade, valendo-se o eu-lírico, neste caso, da linguagem figurada - a metonímia, a parte pelo todo: o indivíduo pelo coletivo, o ser individual pelo ser universal, a unidade pela diversidade.

Quem é, então, o personagem José? O nome escolhido - José - o mais utilizado da língua portuguesa - aplica-se, no poema, ao ser humano comum. Ele representa a unidade na diversidade: um homem (unidade) significando as várias possibilidades de homens, gente que ama, que zomba, que faz versos, que protesta, que sofre, que luta (diversidade).
1a. estrofe:
"você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?"

E como se caracterizaria o poema José? "José" é um poema lírico? É poema de cunho social? José tem características líricas? Sim, são evidentes.
José é um poema de expressão social? Também, sim.
Sim, é lírico no sentido de que apresenta referências líricas - aspectos subjetivos, que remetem o eu-poético, o eu-lírico, ao próprio poeta Drummond em suas vivências e angústias.

É um poema social enquanto veicula aspectos que, embora frutos de um contexto histórico, remetem ao homem no sentido universal, com suas preocupações cotidianas, sua luta pela sobrevivência, as necessidades emocionais e inquietações metafísicas.


Vejamos então como se apresentam os Aspectos líricos no poema:
- José faz versos
José, além das características comuns a todos os humanos, ama, protesta, faz versos, tem uma biblioteca, sugerindo que a abordagem dessa personagem inclui o poeta.

- Minas Gerais está presente no poema:
José parece ser mineiro, pois há referências a Minas Gerais no poema, como sugere a 4a. estrofe:
"quer ir para Minas,
Minas não há mais."

Sabe-se que Drummond era mineiro da cidade de Itabira.  E o próprio Drummond fala sobre o poema e o significado de ser mineiro para ele, numa entrevista a sua filha. Vamos ver e ouvir a gravação pelo poeta (acessando o vídeo):
"O que é José, por exemplo, José é um poema de explosão, é o poema de um suicida que não se suicidou e que conseguiu... através de José, fui reprovado [...] Afonso Arinos achou José um poema errado, porque eu falava que Minas  não havia mais... Minas não havia mais para mim e naquele momento; Minas há em mim, de uma maneira... assim... imponderável mas é profunda, porque sou mineiro e se há uma coisa na vida é que eu sou é mineiro, não sou brasileiro, sou mineiro. Aquele era um momento de desespero porque eu não tinha nada, não tinha Minas Gerais, não tinha nem um apoio, nem um cavalo pra fugir, e essa imagem do cavalo é natural numa pessoa que era filha de fazendeiros e para a qual a ideia de ter um cavalo arriado à sua porta é muito importante, porque o cavalo dá uma ideia de liberdade, de uma ideia de expansão, que eu não tinha em mim, aliás, eu [...] andar a cavalo; então, o poema valeu para mim como exorcismo; agora, depois, então, eu já não sinto a necessidade de exorcismo."


Segundo o próprio Drummond, portanto, o poema reflete um momento em que o poeta passava por uma situação-limite, uma crise existencial.

Outra referência a Minas Gerais é a lavra de ouro (3a. estrofe) - que, como figura de linguagem, tanto pode significar riqueza, bens materiais como o próprio trabalho, o ofício ou emprego de José, pois uma lavra, em Minas, é um pedaço de terra de onde o minerador tenta retirar seu sustento.

Ainda sobre sua vivência no interior mineiro: o poeta  evoca, na estrofe final os regionalismos do interior de Minas - bicho do mato, o hábito de se deixar um cavalo arreado à porta de casa para saídas de emergência.

- Outra característica lírica é a referência à utopia (2a. estrofe). Quando fala em utopia ("não veio a utopia") - Drummond nos dá outra mostra de seu lirismo, pois ele nutria esperança por ideais progressistas,  de uma esquerda utópica, mas, na prática, na existência, mostrou-se decepcionado com o partido comunista com o qual ele mantinha relações.

- A referência à teogonia (6a. estrofe) também é um indício do subjetivismo do poeta. Teogonia é um conceito ligado à criação dos deuses.  Drummond tinha uma relação instigante com a ideia de Deus. Embora tivesse sido criado na religião católica, para ser - como o poeta mesmo dizia -, "temente a Deus", ele se questionava:  Se Deus criou o mundo, quem criou Deus?  Esse é um questionamento existencialista.

     Para o existencialista, as soluções de seus conflitos resultam de suas próprias lutas, não de soluções mágicas, advindas de poderes divinos. No existencialismo, a existência precede a essência; o concreto precede o abstrato, não é um deus que gera o homem, mas o homem que gera seus deuses. No poema, não houve teogonia para José, nenhuma geração de divindades para socorrê-lo, nenhuma intervenção mística no seu momento de desespero, como seria comum entre homens de fé - que inclusive não era exatamente esse o perfil de Drummond, pois o poeta preferia definir-se como agnóstico.




Retomando, então, as características gerais do poema:

"José" é um poema modernista composto por seis estrofes com número variado de versos, em forma de redondilha menor, de cinco sílabas ou pentassílabos, versos brancos, sem preocupação com rimas. A redondilha menor agiliza a leitura, confere ao poema uma atmosfera de agitação, de turbilhão, de pressa, de urgência para a solução da situação-limite em que se encontra o eu-lírico.

A pergunta-chave (E agora?), repetida várias vezes, inicia o poema e já se tornou um refrão no imaginário do leitor. Ela aparece nas quatro primeiras estrofes quando o eu-lírico se dá conta de sua carência, de sua solidão, diagnosticando a situação e está "caindo na real", como se diz popularmente.

A partir da terceira estrofe o eu-lírico inicia o processo de busca da resposta à indagação (E agora?), quando esta é colocada pela última vez no poema. 

Nas duas últimas estrofes já não acontece mais a pergunta porque o eu-lírico encontra-se, então, numa busca frenética para encontrar uma resposta à sua pergunta, uma saída aquela situação-limite.



Ficamos, então,  por aqui com a primeira parte da análise do poema, onde foram elencadas as características gerais.
Na segunda parte, vamos proceder à análise de cada estrofe e verificaremos se o eu-lírico conseguiu ou não uma resposta à sua indagação: E agora, José?

- Oriza Martins - portal Galera Dez



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